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Receita do lucro: entenda o que está por trás dos descontos expressivos nas farmácias

Você já se perguntou por que tem tanta farmácia na sua rua? E por que fornecer seu CPF te dá o benefício de descontos tão expressivos? A série Receita do Lucro, que estreou no último Jornal Metropole, busca responder a essas perguntas e apurar o modelo de negócios que tornaram as drogarias um fenômeno no Brasil. Só em Salvador, são 966 farmácias – quase dez vezes mais do que era registrado em 2010, segundo dados do Conselho Regional de Farmácia do Estado da Bahia (CRF-BA). Uma explosão que tem, por trás, não só o envelhecimento da população, a busca por melhor qualidade de vida e a febre da automedicação.

Nesta edição, vamos entender por que as farmácias conseguem oferecer descontos tão expressivos a seus clientes, condicionando-os ao CPF.

Entregar o CPF na farmácia, para muitos clientes, parece instintivo e inofensivo. Mas é o primeiro passo para abrir a porta da sua intimidade para empresas privadas. E, por trás dessa coleta disfarçada de cortesia, está o truque: o desconto que não é desconto.

No mundo do varejo dos medicamentos, existe no Brasil o chamado Preço Máximo ao Consumidor (PMC), determinado pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos). Na prática, ele é o teto oficial de preços de cada remédio. E o problema está justamente nele, que deveria proteger o bolso do paciente.

Segundo o Instituto de Defesa dos Consumidores (Idec), a diferença entre o valor final com “desconto” e o teto oficial de preços pode chegar a quase oito vezes. Ela chega a custar, na farmácia, quase oito vezes menos do seu preço máximo. Isso significa que, na prática, uma farmácia poderia reajustar este remédio em mais de 675% sem desrespeitar o PMC.

Isso acontece porque o PMC é artificialmente alto e desconectado da realidade. Um antibiótico como o Clavulin tem teto de R$ 422,86, mas era vendido por cerca de R$ 166,81 antes do último reajuste. Significa que, se a farmácia quiser, de uma hora para outra, mais do que dobrar o preço, ele continuará sem infringir nenhuma regra e o consumidor não terá a quem recorrer.

Truque do desconto

Essa é a lógica que funciona para os descontos condicionados ao CPF. A drogaria joga o preço lá em cima, ainda sem atingir o PMC, e aplica o desconto, se aproximando do valor real do produto. Essa é a hipótese do Idec, que analisou a diferença dos preços oferecidos nas farmácias, do valor após fornecimento do CPF e o estabelecido pela CMED.

O cliente vê 70% de abatimento e comemora, mas o preço cheio exibido é inflado de propósito para tornar o benefício atraente.

Em nota ao Jornal Metropole, o Idec “avalia que condicionar descontos à entrega de dados pessoais é uma prática abusiva e o tema segue em investigação por diferentes autoridades”. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) classifica os descontos como potencialmente fictícios. Já o Procon Bahia informou que consolida os dados das fiscalizações para apresentar um relatório final com o número de farmácias autuadas, as principais irregularidades encontradas e as medidas aplicadas, que serão divulgadas oficialmente pelos canais institucionais.

Dados que valem mais que medicamentos

Por trás dos descontos, há a coleta de dados do cliente. Redes como a RaiaDrogasil armazenam todas as compras feitas desde 2008: do antidepressivo ao cotonete. Esses dados formam um retrato completo da vida do cliente — seus problemas de saúde, comportamentos, aspirações, filhos. Informações como essas viram ouro nas mãos de empresas que trabalham com marketing.

A RaiaDrogasil, por exemplo, tem a RD Ads, braço de publicidade do grupo. Ela promete a quem contrata seus serviços unir consumidores e anunciantes. Na prática, vende a entrega de anúncios para grupos de audiência específicos, separados por filtros de acordo com as características e comportamentos coletados nos balcões de farmácia.

*Metro1

Foto: Metropress/Mariana Bamberg

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