O 11 de setembro é uma daquelas datas que marcaram a história da humanidade para sempre. Em um intervalo de 28 anos, dois episódios de naturezas diferentes deixaram feridas ainda abertas até hoje. O primeiro ocorreu no Chile em 1973, quando o Palácio de La Moneda, em Santiago, foi cercado e bombardeado pelas Forças Armadas. O outro chocou o mundo em 2001. Há exatos 25 anos, aviões sequestrados por terroristas da Al-Qaeda atingiram as Torres Gêmeas, em Nova York. Ambos se tornaram símbolos de tragédia e horror em épocas distintas.
No Chile, o alvo era um governo democraticamente eleito. Salvador Allende havia chegado à presidência em 1970, liderando a Unidade Popular e propondo uma experiência de transformação socialista pelas vias legais. Os planos de Allende provocaram intensa reação de setores conservadores da sociedade chilena, das Forças Armadas e dos Estados Unidos, em meio à Guerra Fria.
Com o mundo sob forte polarização entre o “perigo comunista” e o “oásis capitalista”, enquanto o Chile fervilhava no rastro de uma crescente crise política e econômica, tropas militares cercaram o La Moneda na manhã de 11 de setembro de 1973. Conhecido pelo temperamento aguerrido, Allende se negou a renunciar. Pouco depois, o palácio foi bombardeado pela Força Aérea chilena. Ilhado no próprio gabinete, o então presidente fez seu último discurso pelo rádio. Horas mais tarde, cometeu suicídio.
O golpe colocou no poder uma junta militar liderada pelo general Augusto Pinochet. Começava ali uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina. Ao longo de 17 anos, o regime totalitário do Chile se transformou em uma máquina de execuções sumárias, prisões políticas, torturas, desaparecimentos e exílio.
A Comissão Nacional de Verdade e Reconciliação chilena e inúmeras investigações posteriores documentaram milhares de vítimas da repressão praticada pelos militares. Tamanha crueldade fez com que o regime de Pinochet passasse à posteridade como um dos exemplos mais brutais das ditaduras latino-americanas da segunda metade do Século 20.
Quase três décadas depois, o terror entrava no calendário
Não faz muito tempo que, em 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por integrantes do grupo terrorista Al-Qaeda. Dois atingiram as torres do icônico World Trade Center, em Nova York; outro foi lançado contra o Pentágono, nos arredores de Washington. O quarto caiu na Pensilvânia depois que passageiros e tripulantes tentaram retomar o controle da aeronave.
O que tornou aquele 11 de setembro mais chocante foi a forma com a qual ele transcorreu. As Torres Gêmeas desabaram diante das câmeras de televisão de todo o planeta. De acordo com os cálculos oficiais das autoridades dos EUA, cerca de três mil pessoas morreram diretamente.
O que veio depois mudou o curso da história. Além do gigantesco saldo de vítimas, o ataque inaugurou uma nova fase da política internacional das grandes potências, marcada pela chamada “guerra ao terror”, pelas invasões do Afeganistão e do Iraque e por profundas mudanças nas políticas de segurança e vigilância em diversos países.
Nesta sexta-feira, quando os Estados Unidos relembram os 25 anos dos atentados, a coincidência do calendário volta a chamar atenção. O elo, porém, está menos nos fatos do que nas consequências. Ambos produziram imagens que atravessaram gerações — La Moneda em chamas e as torres desabando. Para piorar, deram início a períodos banhados em medo, violência e profundas transformações políticas.
O 11 de setembro chileno mostrou como uma democracia pode ser destruída por dentro, quando instituições são substituídas pela força. O 11 de setembro dos EUA mostrou como o terrorismo pode alterar a política de uma superpotência e redefinir a agenda de segurança mundial. Juntos, os dois comprovam como grandes rupturas históricas nunca terminam no dia em que são consumadas. Pelo contrário, costumam gerar efeitos negativos muitos anos após a fumaça desaparecer.
*metro1
Foto: Imagem gerada com auxílio de IA



