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Rota mortal: BR-116 acumula acidentes graves e amplia número de vítimas na Bahia

Quem cruza a BR-116 na Bahia sabe muito bem que a estrada há muito tempo deixou de ser apenas uma das maiores rodovias federais do país. Cortando o território baiano de norte a sul e passando por cidades estratégicas do interior, como Vitória da Conquista, Jequié e Feira de Santana, a via se tornou um importante corredor de circulação de caminhões, ônibus e veículos de passeio do Brasil. O problema é que ela também se tornou um caminho fácil para a morte.

Em 2026, a BR-116 permanece no topo do ranking das rodovias federais mais letais da Bahia. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) enviados ao Jornal Metropole mostram que a 116 já registrou 57 mortes em acidentes de 1º de janeiro até 10 de maio. O número supera os óbitos contabilizados em outras três estradas com grande número de vítimas no estado: a BR-101, com 48 mortes; a BR-324, com 22, e a BR-242, com 15.

Os números gerais da PRF mostram que a violência nas rodovias federais que cortam a Bahia segue elevada. Em 2025, foram registrados 3.991 acidentes, com 573 mortes e 4.892 feridos. Já em 2026, o estado já contabiliza 1.423 ocorrências, com 521 acidentes graves, 1.895 feridos e 193 mortes. Só a BR-116 concentra quase 25% de todas os casos contabilizados este ano no estado.

Rastro de vítimas

Não faltam exemplos recentes para explicar os números. Na semana passada, um caminhão caiu de uma ponte na BR-116 próxima a Feira de Santana, após o motorista perder o controle do veículo em um trecho da rodovia. Duas pessoas estavam no caminhão: uma morreu ainda no local, antes da chegada do socorro, e a outra sofreu ferimentos leves.

Dias antes, a rota já havia sido palco de outra tragédia que repercutiu nas redes sociais e no meio musical baiano. O cantor de pagode Izac Bruno Coni Silva, conhecido como Zau O Pássaro, morreu após uma colisão entre o carro em que estava e um caminhão nas proximidades de Feira de Santana. Segundo a PRF, outras três pessoas ficaram gravemente feridas no acidente.

Ranking letal

Os acidentes ajudam a manter a BR-116 no pódio da letalidade sobre o asfalto. Em 2024 e 2025, a estrada concentrou o maior número de acidentes entre as federais que cruzam a Bahia. Foram 1.060 acidentes em 2024 e 1.026 em 2025. Em 2026, mesmo com dados ainda parciais, a estrada já acumula 344 registros, quase empatada com a BR-324, que, por enquanto, lidera o número de casos este ano, com 354 ocorrências.

No número de mortes, o cenário também chama atenção. Em 2024, a BR-116 registrou 156 óbitos na Bahia. Em 2025, foram outras 125 mortes. Os dados revelam um padrão conhecido por quem enfrenta o trecho diariamente: fluxo intenso de caminhões, longos percursos de pista simples e ultrapassagens arriscadas, combinação que ajuda a explicar a alta letalidade registrada em diversos trechos da estrada.

Para o motorista Leonardo Ferraz, que percorre a BR-116 semanalmente, a rotina na estrada é marcada por longas filas de veículos de carga em pistas simples e imprudência em vários trechos estreitos da rodovia.  Isso acontece em muitos pontos da estrada, quando motoristas passam quilômetros atrás de caminhões antes de tentar ultrapassagens em áreas de mão simples, cenário que aumenta o risco de colisões graves. “A rotina é perigosa, pois há uma combinação de condutores imprudentes com as condições inseguras da própria rodovia”, afirma.

Perigo maior em feriadões, fins de semanas e datas festivas  

Segundo a inspetora da PRF Fernanda Maciel, os períodos com maior concentração de acidentes costumam ocorrer nos finais de semana e durante feriados e datas festivas, quando há aumento do fluxo de veículos nas rodovias baianas. “O que a gente observa através da análise desses dados é que essas épocas costumam concentrar o maior número de ocorrências”, reforçou.

“Quando a gente faz uma análise dessas causas, são diversas. Tanto associadas à atenção e ao tempo de reação do motorista, como também causas ligadas ao excesso de velocidade, às ultrapassagens indevidas e à mistura de álcool e direção”, destacou a inspetora.

Trechos da morte

Fernanda Maciel afirma que os trechos mais perigosos da BR-116 na Bahia estão concentrados no Sudoeste do estado, especialmente na região de Vitória da Conquista, além do entorno de Feira de Santana. Segundo ela, os maiores registros de acidentes graves acontecem em pontos de pista simples.

Outro trecho apontado pela PRF como de alto índice de acidentes graves fica entre Jequié e Milagres, no Vale do Jiquiriçá. No fim de abril, dois jovens morreram e outros dois ficaram feridos após uma colisão frontal com uma carreta-cegonha. O grupo voltava da tradicional Festa dos Vaqueiros de Milagres, quando a viagem terminou em tragédia.

Falta de duplicação amplia riscos

Para a engenheira civil Denise Ribeiro, especialistas em Mobilidade Urbana e Regional, o perfil da BR-116 ajuda a explicar parte da gravidade dos acidentes registrados ao longo da rodovia. Segundo ela, o intenso fluxo de caminhões em trechos de pista simples aumenta o risco de colisões e ultrapassagens perigosas. “A pista dupla dá uma possibilidade maior de circulação, principalmente mantendo os veículos pesados na faixa da direita e permitindo ultrapassagens mais seguras”, explicou.

A especialista afirma que, em locais onde a duplicação ainda não é viável, a implantação de terceiras faixas em trechos de subida pode ajudar a reduzir os riscos. Segundo Denise, a medida cria uma faixa adicional para veículos pesados em aclives, permitindo que carros de passeio realizem ultrapassagens com mais segurança.

Estrada passa a BR-101 é campeã em óbitos no Brasil

O problema já extrapola os limites da Bahia. Uma pesquisa divulgada em março deste ano pela Fundação Dom Cabral apontou que, pela primeira vez, a BR-116 ultrapassou a BR-101 e passou a ser considerada a rodovia mais perigosa do país. O levantamento, baseado em dados da PRF e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), mostra um corredor crítico que sai do Rio de Janeiro, atravessa Minas Gerais e desemboca justamente em território baiano.

Segundo o estudo, muitas das colisões mais graves ocorreram em pistas simples, cenário frequentemente associado a acidentes de alta letalidade. Os caminhões aparecem como personagens recorrentes nessa estatística. Somente em 2025, foram registrados 1.381 acidentes envolvendo veículos de carga na rodovia federal, com 287 mortes.

Em 2026, até maio, caminhões já estiveram envolvidos em 506 ocorrências, que deixaram 100 mortos. Em estradas de fluxo intenso como a BR-116, o tamanho dos veículos e o impacto das colisões acabam transformando muitos acidentes em ocorrências mortais.

Segundo o estudo, embora a BR-101 ainda concentre mais acidentes, a BR-116 passou a registrar ocorrências mais trágicas. Isso significa que colisões parecidas provocam mais mortes e feridos graves na estrada que começa em Fortaleza e termina na fronteira do Brasil com o Uruguai.

Problema se repete nas rodovias estaduais

O cenário de perigo nas estradas não se restringe às rodovias federais. As estaduais da Bahia também acumulam números elevados de acidentes em 2026. Dados da Secretaria de Infraestrutura da Bahia (Seinfra) disponibilizados ao Jornal Metropole apontam que, entre janeiro e abril deste ano, foram registrados 1.120 acidentes nas BAs, com 133 mortes.

A BA-099, no trecho do Litoral Norte da Bahia, lidera o ranking estadual de ocorrências em 2026, com 131 acidentes e 10 vítimas fatais. Em seguida aparecem a BA-001, BA-263, BA-262 e BA-526, que também concentram altos índices de acidentes e mortes nas estradas baianas.

Apesar do cenário ainda preocupante, houve redução de 22,7% no número de acidentes na comparação com o primeiro quadrimestre de 2025. No mesmo período do ano passado, as rodovias estaduais registraram 1.450 ocorrências e 174 mortes.

Ao longo de todo o ano de 2025, foram contabilizados 4.270 acidentes nas estradas estaduais baianas, com 469 vítimas fatais. As rodovias com mais registros no período foram a BA-001, com 468 acidentes e 40 mortes, e a BA-099, com 449 acidentes e 25 vítimas fatais.

*metro1

Foto: Divulgação

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