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Dia do Estudante: Inteligência artificial transforma salas de aula no Brasil

O Dia do Estudante, celebrado em 11 de agosto, nasceu em um Brasil muito distante da realidade das salas de aula atuais. A data remonta a 1827, quando Dom Pedro I criou os primeiros cursos jurídicos do país, em São Paulo e Olinda, em um período no qual o acesso ao conhecimento era restrito e dependia de livros, professores e longas horas de estudo. Quase dois séculos depois, o estudante brasileiro carrega uma nova ferramenta no bolso: a inteligência artificial, capaz de resumir textos, resolver equações, explicar conceitos e até produzir redações em poucos segundos.

A IA já é presença certa no cotidiano dos estudantes brasileiros. Universitários ou em idade escolar, a tecnologia transformou radicalmente a forma como os alunos lidam com o conhecimento. No entanto, enquanto a adoção da ferramenta avança a passos largos entre os jovens, o sistema educacional ainda corre contra o tempo para entender como integrá-la sem comprometer o aprendizado e o pensamento crítico.

Nas universidades, cerca de 52% a 71% dos estudantes já utilizam a IA em suas rotinas. Um levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes) aponta que 29% deles recorrem à tecnologia diariamente, e 42%, semanalmente, focados principalmente em entender conceitos e criar rascunhos.

Na educação básica, o cenário não é diferente. Uma pesquisa realizada pela Fundação Itaú e o Equidade.Info, entre novembro e dezembro de 2024, revelou que 8 em cada 10 alunos já usaram ferramentas como ChatGPT, Gemini ou MidJourney. Destes, 84% utilizam os sistemas para fins de estudo e 90% para pesquisar e tirar dúvidas. O uso é consideravelmente maior no Ensino Médio (29%) do que no Ensino Fundamental (13%).

O paradoxo, no entanto, reside na porta de entrada das instituições: segundo a Pesquisa TIC Educação 2025, do Cetic.br, embora a IA já faça parte da rotina de mais da metade dos gestores escolares, apenas 37% das escolas permitem o uso da tecnologia em atividades educacionais.

Vale lembrar que no Brasil, o uso de celulares e aparelhos eletrônicos por estudantes da educação básica em escolas públicas e privadas é proibido desde a sanção da Lei Federal nº 15.100 em 13 de janeiro de 2025.

SUPERFICIALIDADE E DESCARREGAMENTO COGNITIVO
A linha tênue entre usar a máquina como um tutor particular ou como uma “muleta intelectual” é a principal preocupação dos educadores. Rafael Sampaio, professor do Departamento de Ciência Política da UFPE e pesquisador das relações entre IA e educação, aponta que o uso indiscriminado pode gerar o que especialistas chamam de “descarregamento cognitivo”.

“Os primeiros estudos mostram que o aluno que usou IA vai melhor nos testes, mas se você repetir a mesma prova, esse grupo tem mais dificuldade para se lembrar o que foi feito”, explica Sampaio. “Quando você usa IA, muitas vezes acaba terceirizando o pensamento e fixando menos o conhecimento. Quando você está usando a IA para fazer coisas no seu lugar, a perda é gigante porque, basicamente, você não está realizando a tarefa; ela está te substituindo”, explica.

Na linha de frente do ensino médio, a percepção é semelhante. Jorge Dias, professor de Biologia, nota que a dificuldade dos jovens em formular comandos precisos (os chamados prompts) muitas vezes resulta em um aprendizado raso. “Quando a gente pede para eles explicarem o que foi pesquisado, eles não conseguem ter profundidade. Ficam na superficialidade do que foi respondido pela IA”, relata o docente. “O aluno leitor continua leitor e usando possivelmente a IA também. O grande problema são os alunos que não têm tanta afinidade com a leitura e usam a ferramenta apenas como uma fuga de resolução rápida de atividades, tornando o conhecimento superficial.”

PRESSÃO POR ENTREGAS
Já para os próprios estudantes, a pressão por notas frequentemente fala mais alto do que o desejo pela retenção do conteúdo. Sofia Barreto, estudante do ensino médio, confessa que o sistema de avaliação atual, focado em entregas, acaba incentivando o uso da tecnologia como atalho. “A IA não estimula o seu aprendizado, só garante a entrega da atividade. Ainda é um pouco sobre o resultado e não sobre realmente o que você aprende. Muita gente não se importa com isso, só quer entregar e dizer que entregou”, afirma a estudante.

Ela também levanta um alerta sobre o distanciamento entre o que se ensina hoje e o que será exigido amanhã: “A minha maior preocupação é os alunos ficarem muito dependentes e não desenvolverem habilidades para o vestibular e o mercado de trabalho. Eu não sinto que a escola tenha se preparado para um mercado dominado pela IA, não se fala muito sobre isso.”

Apesar das ressalvas, os alunos demonstram ter consciência dos perigos digitais. A pesquisa da Fundação Itaú mostra que 54% dos estudantes reconhecem que a IA pode representar perigo se usada sem regras, e 75% estão cientes do potencial da tecnologia para a criação de notícias falsas (fake news).

PROFESSORES E CO-INTELIGÊNCIA
Se de um lado há desafios, do outro há um corpo docente disposto a se adaptar. Apenas 21% dos professores brasileiros nunca utilizaram IA, segundo a Fundação Itaú. A grande maioria enxerga o potencial da tecnologia: 84% citam a IA como apoio no planejamento de aulas e aumento de produtividade, e 76% a utilizam para criar materiais pedagógicos.

No entanto, o desejo por atualização é unânime. Cerca de 84% dos professores e 90% dos gestores concordam que o currículo escolar precisa ser atualizado para incluir a interação crítica com a inteligência artificial, e 62% dos docentes pedem módulos sobre o tema em seus cursos de formação.

Para lidar com o novo cenário, professores como Jorge Dias estão mudando a forma de avaliar. “Na hora de uma apresentação, a gente pede algo a mais. Se o aluno não tiver várias fontes e uma pesquisa sólida, ele não vai conseguir se sair bem”, explica o biólogo.

No ensino superior e na pesquisa científica, essa integração exige um rigor ético ainda maior. O professor Rafael Sampaio defende o conceito de “co-inteligência”, onde a IA age como provocadora, não como autora.

“O artigo não é só um relato, ele envolve uma série de decisões. A escrita é o momento final, a realização da pesquisa. O limite seria realmente não deixar a IA escrever totalmente um texto”, pondera Sampaio. “Mas se você teve as ideias, fez a pergunta, fez a análise, e aí a IA entra para buscar lacunas, te apresentar outras perspectivas… O seu processo científico não foi degradado, ele foi incrementado. Me parece que o caminho mais saudável seria este.”

*Bahia Notícias

Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil
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